Há três grandes eixos de analise no livro:1) Descrição e análise detalhada do sistema de clãs e totemismo de certa tribos australianas;
2) Tentativa de compreensão da natureza da religião e de sua importância para vida social;
3) Passos inicias da construção de uma teoria do conhecimento, voltada para interpretação sociológica das formas do pensamento humano.
Estudar a religião mais primitiva e mais simples que se conheça, para explicá-la e generalizar o resultado da pesquisa a todas as formas religiosas conhecidas.
Por mais simples que seja o sistema que estudamos, nele encontramos todas as idéias e todas as principais atitudes rituais que estão na base das religiões, inclusive as mais avançadas: distinção das coisas em sagrado e em profanas, noção de alma, de espírito, de personalidade mítica, de divindade nacional e mesmo internacional, culto negativo, com as praticas ascéticas que são sua forma exasperada, ritos de oblação e de comunhão, ritos imitativos, ritos comemorativos, ritos piaculares. (p.457)
Religião: objeto e manifestaçãoNa maioria das vezes, os teóricos que procuram exprimir a religião em termos racionais viram nela, antes de tudo, um sistema de idéias que correspondia a um objeto determinado. Esse objeto foi concebido de diferentes maneiras: natureza, infinito, incognoscível. (p. 458-459)
Vários foram os objetos de culto, podem classificar-se em três grupos:
1) Objetos manejáveis, como pedras, conchas, etc.
2) Objetos semi-manejáveis, tais como: árvore, rios, montanhas
3) Objetos fora do alcance, o céu, os astros.
Dos primeiros provieram os FETICHES; dos segundos, OS DEUSES COMUNS; dos terceiros, O DEUS SUPREMO.
Finalidade dos ritos na religiãoO primeiro elemento da religião consiste na crença em um mundo distinto do mundo experimental, mundo em que existem seres livres, com os quais o homem entra em relação. Já o segundo elemento é um conjunto de normas de proceder, impondo-se ao homem em nome de um poder sobre-humano.
Quanto aos ritos, eles se afiguravam apenas, desse ponto de vista, como uma tradução exterior, contingente e material desses estados internos que seriam os únicos a ter valor intrínseco. (p. 459)
Sentimento do religiosoO homem religioso Sente que a verdadeira função da religião:1) não é nos fazer pensar;
2) enriquecer nosso conhecimento;
3) acrescentar as representações que devemos à ciência;
4) mas sim nos fazer agir, nos ajudar a viver.
“É fortalecido, seja para suportar as dificuldades da existência, seja para vencê-las; se sente como que elevado acima das misérias humanas porque esta elevado acima de sua condição de homem; acredita-se salvo do mal, acredita que
descansara após a morte.” (grifo nosso)
CultoA freqüência com que o fiel presta culto a divindade fortalece-o na busca e confiança no seu deus e tudo que ele lhe promete, pois a renovação acontece sempre que o fiel participa das cerimônias.
O culto não é simplesmente um sistema de signos pelos quais a fé se traduz exteriormente, é o conjunto dos meios pelos quais ela se cria e se recria periodicamente. (p. 460)
Logo, desse ponto de vista, percebe-se como adquire toda a sua importância esse conjunto de atos regularmente repetidos que constitui o culto.
A religião engendrou todas as grandes instituições humanasPara Durkheim as religiões são obras da sociedade e a expressam, estando assim na base de qualquer pensamento, inclusive o cientifico.
Pode-se, portanto, dizer em resumo, que quase todas as grandes instituições sociais nasceram da religião. (p. 462)
Religião é espiritualEle rompe com a idéia de uma religião materialista
Todas as religiões, mesmo as mais grosseira, são, num certo sentido, espirituais, pois as potências que elas põem em jogo são, antes de tudo, espirituais e, por outro lado é sobre a vida moral que elas tem por principal função agir. (p. 463)
Religião é idealista ou realista?Durkheim defende, que não obstante, a religião ser idealista na sua forma, também contém elementos realistas. Ainda que aqueles prevaleçam sobre estes para manter a vida em sociedade possível.
... é simplificar arbitrariamente as coisas ver a religião apenas por seu lado idealista: ela é realista a sua maneira. Não há feiúra física ou moral, não há vícios e males que não tenham sido divinizados. Houve deuses do roubo e da astucia, da luxuria e da guerra, das doenças e da morte. O próprio cristianismo, por mais elevada a idéia que faz da divindade, foi obrigado a conceder ao espírito do mal um lugar... (p. 464)
A religião, portanto, longe de ignorar a sociedade real e de não levá-la em conta, é a imagem dela, reflete todos os seus aspectos... (p. 464)
Tudo se encontra nela, e se, na maioria das vezes, ela mostra o bem prevalecer sobre o mal, a ida sobre a morte, as potencias da luz sobre as potencias das trevas, é que não poderia ser de outro modo na realidade. Pois, se a relação entre essas forças contrárias fosse invertida, a vida seria impossível... (p.465)
Culto individual e universalEle pergunta: Como explicar o culto individual e o caráter universalista de certas religiões? Se ela nasceu in foro externo, como pode passar para foro interno do individuo... (p.469)
Ao que ele mesmo responde a respeito da individualização: A força religiosa que anima o clã, ao se encarnar nas consciências particulares, se particulariza. Assim se forma seres sagrados secundários; cada indivíduo tem seus, feitos a sua imagem, associados a sua vida intima, solidários de seu destino: alma. O totem individual, o antepassado protetor. Esses seres são objetos de ritos que p fiel pode celebrar sozinho, separado de todo grupo; trata-se, portanto, de uma primeira forma de culto individual. (p.469)
E da universalização: ...as crenças só são ativas quando partilhadas. (p. 470)
..., o homem que tem uma verdadeira fé sente a necessidade invencível de espalhá-la. (p. 470)
Com o universalismo acontece o mesmo que com o individualismo.
Tribos vizinhas e de idêntica civilização não podem deixar de estar em relações constantes umas com as outras: casamento, comércios... (p.471)
A vida social muito particular que daí resulta, tende, portanto, a se espalhar numa área extensa sem limites definidos. (p.472)
Futuro da religião frente à ciênciaPara Durkheim a religião continuará a sua hegemonia sobre as almas, já que dessa, não abrirá Mão, tal qual fez com a primitiva função especulativa em favor da ciência. Portanto, ela continuará tendo o seu lugar ao sol enquanto a sociedade existir.
Nisso consiste o conflito da ciência e da religião. É comum fazer-se uma idéia inexata a respeito. Diz-se que a ciência nega a religião em princípio. Mas a religião existe, é um sistema de fatos dados; em uma palavra, é uma realidade. Como poderia a ciência negar uma realidade? (p.467)
Assim, não há conflito a não ser num ponto limitado. Duas funções que a religião primitivamente cumpria, existe uma, mas uma só, que tende cada vez mais a lhe escapar: a função especulativa. O que a ciência contesta à religião não é o direito de existir, é o direito de dogmatizar sobre a natureza das coisas, é a espécie de competência especial que ela se atribuía para conhecer o homem e o mundo. (p.477)
Corolário da teoria Sociológica da religião1) Repele as doutrinas que fazem da religião uma instituição artificial, devida aos sacerdotes, aos interesses, ao medo, a fantasia. Para Durkheim Oe um postulado evidente, que a religião é uma instituição universal e permanente, e que, portanto, não repousa sobre o erro e a mentira. A religião te o seu fundamento no real.
2) A religião é um fato social por excelência, de que procederam os outros, o que tem por objeto criar periodicamente a vida social e intensificá-la; é o laço social mais poderoso, o fator principal da consciência social da coletividade.
3) Dá a religião um grande destaque social, condenando, portanto, todo individualismo religioso: as doutrinas da autonomia total da consciência religiosa.
4) Proclama a necessidade de uma tradição religiosa. Segundo o sociologismo, o homem recebe da sociedade a linguagem como as idéias, a fé religiosa, o culto. É um tradicionalismo religioso.
5) Admiti a legitimidade de uma Sociologia religiosa: uma vez que toda religião tende a projetar-se na vida social, a torna-se uma igreja e a tomar um corpo de instituição. Portanto, é legitimo fazer um estudo sociológico das manifestações culturais: sacrifícios, ritos, liturgias cerimônias.
6) Afirma a perpetuidade da religião: Comte promete a substituição da religião pela ciência, já na teoria de Durkheim é garantida a perenidade da vida religiosa.
Critica a teoria sociológica de Durkheim1) Quanto ao totemismo como origem da religião:
Segundo J.G. Frazer, o totemismo não é, em grau algum, uma religião. Os totens não recebem cultos, não se lhes concilia o favor por meio de orações ou sacrifícios, em sentido algum, são deuses. Ele concluiu que o totemismo é um simples sistema de organização social.
2) O totemismo não é nem foi universal, não podendo, pois ser um estágio necessário na evolução religiosa da humanidade.
3) O clã não considera o totem como seu superior, mas seu igual e amigo. Não é, pois, um deus, Logo, é errado querer dar ao totemismo o caráter religioso.
4) O totemismo não é um fenômeno primitivo, como o mostrou Frazer e outros, não podendo, pois, só por esse motivo, ser a religião inicial. Só Durkheim e Freud colocaram, na base de suas teorias religiosas, o totemismo, quando já os especialistas na matéria haviam concluído por negar-lhe caráter religioso.
5) A idealização social não existe como lei. Ao admitir que a sociedade tem poder espontâneo de idealizar , e que essa é sua função própria e perpetua. Que ela transfigura aos olhos dos crentes as realidades, despojando-as das imperfeições para fazê-las aparecer com uma beleza sobre-humana, peca Durkheim em atribuir ao primitivo, que nos é descrito como alguém incapaz de abstrações, preso a uma inteligência concreta, justamente essa capacidade metafísica, ao idealizar uma sociedade perfeita.
6) A teoria contradiz a experiência constante e universal que mostra o caráter individual do que existe em mim. A percepção da própria personalidade resulta de um dado imediato da consciência.
Bibliografia
Formas elementares da vida religiosa
Filosofando Introdução a Filosofia Maria Lucia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins- Moderna- São Paulo
Filosofia, Psicologia e Religião.Lucio Jose dos Santos – Melhoramentos. São Paulo